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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Ver através - #02

Confesso que a produção de fotografias desde a primeira aula se tornou um desafio incrível pra mim.
Neste momento do fazer fotográfico, as noções de enquadramento e conhecimentos técnicos acerca da câmera fotográfica serviriam como suporte para a criação artística centrada em uma poética.
Eis o grande desafio: conceber a minha própria poética enquanto artista-fotógrafo.

Após a leitura do livro "A Câmara Clara", de Roland Barthes, houve uma discussão acerca do sensível na fotografia; os conceitos de imagem, composição e conceito fotográfico foram abordados e a  fotografia a seguir é o marco inicial neste processo de construção da minha poética:



Em uma manhã no Centro de Artes, Humanidades e Letras - UFRB, estive preocupado com uma série de atividades acadêmicas que deveria realizar. Ao me sentar em uma cadeira no corredor, percebi que logo à frente havia um "espelho", um vidro que refletia a minha imagem, mantendo ainda seu aspecto translúcido. Posicionando a câmera de forma discreta, mantive meu corpo posicionado no canto inferior direito da imagem, de modo que as linhas retas da composição automaticamente emoldurassem o meu rosto.
Decidi não olhar diretamente para frente, posto que pretendia "transparecer" meu ar de preocupado, pensativo, refletindo sobre a vida, bem como no vidro.
Surge então esta ambiguidade do reflexo. A imagem não se apresentou invertida como antes, mas refletida!

O grande diferencial desta imagem é o ver através. Aqui, a imagem só é vista através do reflexo do vidro, o qual, translúcido, permite ver o que está além da imagem refletida: texturas.

Portanto, dentre as fotos apresentadas em sala como experimentos, esta foi a que melhor expressou e sintetizou as ideias propostas, muito embora eu não tenha conseguido trabalhar com a inversão do ângulo, tal qual acreditava que iria trabalhar.

Quanto à poética da memória, estive preso ao conceito de memória como algo preso ao passado.
Por falta de imagens da minha infância, não consegui associar tal produção a algo específico.
Tal forma de visualizar a memória se modificará com o tempo, nas produções vindouras.

Por enquanto, é isto.
Acompanhemos, pois, o processo de elaboração poética!

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Translúcido, ali me via
Imagem do eu
desfazendo-se ia

Em pensamento
Pus-me em algum instante
a admirar a cor do vento

Lúcido, já não me via
Imagem do eu
onde estaria?

Imagem e Iluminação - #03

Após uma aula sobre iluminação, cuja abordagem se deu em um estudo sobre as temperaturas de cor, foi inevitável uma clara associação com o meu próprio nome.
A medida de temperatura, no SI, é Kelvin.
Um gráfico apresentado em aula me chamou a atenção: tratava-se da graduação da cor e sua temperatura tomando por base a luz do dia. Pela manhã, a luz é mais fria; ao meio-dia, branca e forte; ao fim da tarde, alaranjada e suave.

Faz-se necessário entender o poder da temperatura de cor na composição fotográfica, posto que ela pode realçar ou contrapôr o conceito proposto pelo fotógrafo.
Tecnicamente, não obtive os resultados pretendidos. Conceitualmente, sim.
A questão da narrativa, solicitada pela professora desde o primeiro dia de aula, mais uma vez não se efetivou.

Acompanhe as imagens a seguir:





A sequência de imagens foi apresentada (junto a outras) e se quis destacá-la por trazer um conceito que as conecta.
Na primeira imagem, temos o ver através novamente. Aqui, o eu é apresentado sob a variação do vidro, que aufere um quê de imagem fragmentada, múltipla, não objetiva. A professora sugeriu esta imagem como a principal forma de trabalhar este eu na fotografia.
Vali-me de uma ampulheta, com areia azul, como símbolo de tempo. Além do eu, do tempo, quis apresentar aqui um elemento azul e ajustei o balanço de branco, de modo que a imagem indicasse frieza e serenidade. Tirei a fotografia logo que acordei, às 5h, com o intuito de incorporar à imagem também o processo de criação.

A segunda imagem diz respeito aos trilhos de trem, os quais associei a um brinquedo da infância de importante valor simbólico: um ferrorama. Cachoeira, o lugar onde vivo, tornou-se, então, o lugar projetado em forma de brinquedo na minha infância. Aqui, associei a poética da memória à minha infância. Ainda assim, não estava muito claro o que trabalhar nessa infância e se, de fato, era essa a minha intenção.
O aspecto quase monocromático foi obtido numa manhã nublada. Utilizei uma lupa para inverter e emoldurar a imagem capturada.
A intenção, no entanto, era capturar uma imagem que representasse o meio do dia, com uma luz branca e dura sobre esta mesma cena.

A terceira imagem traz, mais uma vez, a inversão. Aqui, num brinquedo no parque municipal, vali-me de uma camisa vermelha e me posicionei num brinquedo de cor equivalente. A foto foi tirada em torno das 17h, de modo que a luz do fim do dia incidisse suavemente, favorecendo a composição. As árvores, no entanto, bloqueavam grande parte da luminosidade e os raios de sol alaranjados se fizeram presentes de forma muito suave.

Assim, pretendi estabelecer um eixo entre o eu, a memória da infância e a própria infância sendo revivida ou lembrada nos dias de hoje. A gradação das cores, embora não tivesse atingido o efeito pretendido, foi uma forma de estabelecer uma relação entre a temperatura (medida em Kelvin) e o meu nome.

Até a próxima!

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Nem tudo o que passa é passado
Basta sentir o vento que passa a teu lado

Pesquisa Técnica e Estética - #05

Devo, de antemão, ressaltar que as aulas têm sido de grande ajuda. Não falo apenas da questão da elaboração poética, da exibição de conteúdo, mas de autoconhecimento, dessa jornada de descobertas e redescobertas no campo da imagem. A cada semana e a cada criação, isso se denota com mais clareza.

Abordando a questão da técnica e a estetização na fotografia, pude observar as discrepâncias entre uma e outra imagem mais ou menos estetizada, aguçando cada vez mais o olhar sensível sobre a fotografia enquanto mecanismo de reprodução da imagem de si.
Passei, portanto, da função de mero operator para retratado em busca de uma identidade, de uma definição do eu ante o aparelho.

Mergulhando nas possibilidades permitidas numa câmera fotográfica (e as extrapolando!), encontrei na técnica da longa exposição uma chave para o meu fazer fotográfico. Encontrei a técnica que me serviria de base para a realização de imagens deste eu em busca de uma definição, de um elo com sua memória perdida, de um diálogo sereno consigo mesmo.

A seguir, as imagens produzidas:







É importante salientar o poder da cor laranja nesta composição.
Embora se trate de uma cor quente e que evoque uma sensação de extroversão, aqui a cor é apresentada para acentuar uma dramaticidade do jogo entre luz e sombra das figuras dispostas na imagem.

Não houve a utilização de softwares de manipulação de imagem.

A longa exposição consiste no controle da velocidade do obturador, de modo que o fotógrafo possa se articular para expôr diferentes tipos de luzes e posições numa única fotografia.
Com abertura f/5.6, ISO 125 e 30 segundos de exposição, utilizando um isqueiro, deixei a câmera posicionada num enquadramento específico e acendia o fogo enquanto decorriam os 30 segundos de exposição da câmera à luz.

A segunda imagem foi considerada uma imagem-chave da minha produção. Trata-se, no entanto, não de um diálogo direto consigo mesmo, mas de uma relação de individualidade de fases desse eu. A intenção era criar uma linearidade cromática com as camisas, indo do preto, passando pelo cinza e chegando ao branco.
Simbolizaria, portanto, uma busca pela iluminação, uma caminhada constante pelo melhoramento de si. O tom alaranjado intenso do fogo, o enquadramento e o jogo de sombras conferiram às imagens uma estetização ainda não vista nas produções de outrora.

Firmei a minha poética fotográfica trazendo o mote da filosofia socrática "Conhece-te a ti mesmo". Atrelei, ainda, a questão da espiritualidade, a qual se faz presente nas imagens etéreas, esvoaçadas, translúcidas. De certa forma, acabei encontrando na longa exposição a possibilidade de tratar de fragmentos de imagem, o ver através, a questão da reflexão como pensamento e do espelho de si, não como caráter narcísico, mas uma metáfora acerca da visualização espelhada do eu, uma análise sobre a minha conduta e moral.

Em se tratando da memória, o eixo norteador das produções fotográficas, ainda aqui encontrei dificuldades em dialogá-la com as fotos que fiz.
Não se trata de uma memória do corpo, posto que não é o corpo em si o destaque; não se trata de uma memória do rosto, da expressão, posto que não são elementos-chave. Ainda fico em conflito na definição desta memória nas minhas produções, mas devo encontrá-la ao longo deste processo.

Até mais!

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Três fases
fazem as pazes
com suas ideias

Descobrem um mundo
apenas em um segundo

Concentradas em si.

Imagem Digital - #04

A abordagem da aula que antecede a produção de hoje é a imagem digital

Conceitos de pixels, reprodutibilidade da imagem e manipulação foram apresentados, tomando como referência os nomes de uma série de fotógrafos que trabalharam (e trabalham!) com a manipulação da fotografia, desde a analógica até a digital.


Como suporte teórico, debruçamo-nos sobre o livro de Vilém Flusser intitulado "Filosofia da Caixa Preta".
Em síntese, trata-se de um estudo acerca do aparelho fotográfico e como o operador pode e deve burlá-lo para obter o controle sobre a ferramenta que utiliza, não permitindo que o aparelho seja total determinante no processo de criação.

Com isso em mente, entender a técnica é fundamental. Efeitos que muitas vezes acontecem ao acaso, devem ser entendidos, de modo que o operador da câmera fotográfica possa reproduzi-los conscientemente em seu processo.


Quanto à produção de uma imagem com manipulações digitais, segue a imagem:





A imagem foi criada pensando no conceito de iluminação proposto em aulas passadas.
Incorporei esta questão da medida em Kelvin para elaborá-la.
Com uma luz de uma vela e ajuste no balanço de branco de modo a ressaltar o tom alaranjado, configurei a câmera portátil para manter o obturador aberto durante 1 segundo.
Com as luzes apagadas, utilizando uma camisa laranja e iluminado pela vela, obtive o eu que se encontra de cabeça pra baixo. Utilizando um programa de edição de imagens, inverti minha posição e sobrepus a figura com o eu em azul, reforçando a ideia de escala de temperatura.
Ao fundo, preto, desenhei linhas brancas e apliquei um efeito de desfoque radial, o que conferiu um aspecto cíclico entre o eu alaranjado e o azulado.

Pretendeu-se, pois, estabelecer uma conexão do eu consigo mesmo, tomando a inversão neste processo para conectar os "eus".

Quanto à questão da memória, estabeleço aqui uma relação com os monólogos dialogados por mim produzidos. Neste caso, a infância não se fez presente. Confesso que obtive uma grande dificuldade de firmar esta questão da memória em minhas fotografias.
Quanto a minha poética, entendi que se tratava de uma poética da autorreflexão, do diálogo comigo mesmo. E a partir daqui as imagens começam a enveredar por um caminho mais definido!

Grato pela leitura e até a próxima!

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Ver é desafiar
Ver é afiar
a mente
a alma
o olhar

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Pesquisa de Linguagem - #06


Entendendo cada vez mais como se dá o processo criativo de cada artista, aprofundei-me sem medo no mundo da experimentação fotográfica. Tal liberdade de criação voltada na subjetivação e constante experimentação me permitiu me desdobrar com mais clareza nesse aspecto.

Quanto a linguagem na fotografia, deve-se entender que a fotografia é um texto não-verbal que exprime em si um significado além da técnica. Deparando-me com isso, percebi que no silêncio da minha própria imagem, a autorreflexão pulsava e me permitia, enquanto spectator, avaliar e entender a técnica fotográfica e, acima de tudo, como se comportava a minha imagem diante da câmera.


Neste processo, no entanto, obtive algumas dificuldades. Algo natural em um processo de amadurecimento.
Após a exibição das imagens, darei continuidade as minhas conclusões:







A intenção aqui era estabelecer um diálogo direto com o eu na fotografia, tão carente nas últimas produções. Tive dificuldade em centrar nesse objetivo.
Ressalto a importância da longa exposição neste processo. Sem esta técnica, deveria recorrer obrigatoriamente a algum software de manipulação de imagens para realizar as composições, o que tentei evitar.

Na primeira imagem, com a ajuda da minha namorada mirando a luz de uma lanterna, deixei a câmera em uma posição em torno de 15 segundos. Pedi que ela desligasse a lanterna e virei a câmera de cabeça pra baixo. Fiz uma outra pose e, findo o tempo de exposição, eis o resultado obtido. Não enquadrei como deveria. Esta foto fez parte apenas de um processo.

As fotos seguintes foram elaboradas pensado numa questão narrativa. Fundamentam-se, pelas cores das camisas, ainda na questão da temperatura de cor.

Por último, a imagem desfocada não-proposital do diálogo comigo.
Muito embora haja o desfoque e a falta de nitidez e enquadramento adequados a minha proposta, achei os resultados interessantes.
A memória do eu se faz muito constante: são fases de si que dialogam em uma linha atemporal.
Pensei em trabalhá-la em uma outra instância e talvez consiga desenvolvê-la com mais tranquilidade daqui em diante. Anteriormente, utilizava uma câmera portátil que não permitia o controle do obturador.
Agora, com uma câmera nova, as experimentações poderão fluir com muito mais facilidade!

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Elo
Eloquência
Frequência
Paciência
Paz

Seminário - Poéticas Fotográficas no Brasil - #08


Orientada pela professora Valécia, a turma deveria apresentar um seminário sobre a poética de um fotógrafo brasileiro que, preferencialmente, tivesse alguma relação com o trabalho realizado por cada um.
Até o momento da pesquisa, acreditava-se que seria um caminho fácil. E não foi.
Encontra-se muito a respeito de fotojornalistas e, portanto, muitas fotografias documentais. Não há, ainda, um mapeamento a respeito da produção fotográfica como arte, muito embora esta tenha se despontado como uma vertente com um grande potencial de desenvolvimento.

Assim sendo, lancei-me rumo ao desconhecido mais uma vez.
Devo admitir que tive muitas dificuldades nesta tarefa. Alguns artistas elencados como possíveis objetos de pesquisa logo foram descartados por não se apresentarem com a proposta similar a do meu trabalho.

Trabalhar com fotografia é trabalhar com a luz. E, com o perdão do trocadilho, uma luz surgiu pra mim: em um Seminário de Ressignificação de Imagens, realizado por um dos meus professores e apresentado por 04 dos meus colegas, tive contato rápido acerca da produção de Ana Paula Pessoa, citada por Deisianne Barbosa, minha colega. Soube que ela trabalhava com autorreflexão, imagens de si não erotizadas, manipulação digital e isso me chamou a atenção.

Para o trabalho, realizei o que intitulei "Fases e Faces de Si", o que descreve as várias fases desse eu e suas distintas faces e suas variações atemporais:



Uso o light painting, máscaras de cor e a longa exposição para criar a variação da cabeça.
O curioso é que já tinha realizado este tríptico vertical quando me deparei com os trabalhos de Ana Paula Pessoa. Encontrei, por acaso, um de seus trabalhos intitulado "Auto-retrato".
O diálogo foi direto: light painting e imagem de si.

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Para finalizar, ressalto a importância do referencial teórico indicado.
"O Fotográfico", de Rosalind Krauss, e "O Ato Fotográfico", de Phillipe Dubois, serviram também como suporte durante o processo de criação e a compreensão de seus conceitos ajudaram a fundamentar alguns dos argumentos tanto no seminário quanto em trabalhos extra classe.

Por ora, me despeço.
O trabalho final do semestre será disponibilizado em breve.
Até mais!

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"Em algum lugar da memória, encontrou uma máxima filosófica que lhe servia como eixo norteador da conduta: 'Conhece-te a ti mesmo'. E se conheceu. Dia após dia, estabelecendo monólogos dialogados, seguiu rumo ao melhoramento de seus pensamentos e ações. Difícil foi, no entanto, conhecer (e reconhecer) sua pluralidade sngular, suas transições no tempo, sua unicidade plural em diferentes instâncias da vida..."

Pesquisa Conceitual e Experimental - #07


Se eu pudesse definir a minha fotografia em uma linguagem específica, eu diria se tratar de uma fotografia embebida de conceito, elaborada no que há de mais livre no quesito experimental. Há a elaboração conceitual subjetivada na imagem, bem como o processo de experimentação da longa exposição a meu favor. Muito embora eu tenha apreendido (finalmente!) a minha criação, confesso que muitos elementos que disponho na imagem são simbólicos, índices de alguma coisa, com significados distintos, pouco claros ao espectador sem conhecimento prévio das definições que incuto nas imagens.

Isso ficou evidente, por exemplo, aqui.

Finalmente, creio eu, consegui sintetizar e atrelar todas as questões orientadas pela professora ao longo deste processo. Na sequência a seguir, criei uma narrativa e reforcei a poética da autorreflexão, do eu.
Fiz um recorte mais preciso, centrado nas figuras; trabalhei com a técnica light painting pra reforçar a dramaticidade das cenas e lhes auferir força narrativa; e a memória se fez notável através da ação: o eu em contato "físico" com o "outro".
Na sequência a seguir, mantive o foco nos personagens, nas ações, no rastro de luz, nas expressões, no uso do efeito sepia para acentuar uma atmosfera intimista, propícia a autorreflexão, ao autoconhecimento.






















Como apresentado, as imagens seguem uma cadência lógica. A memória do eu em suas instâncias da vida, definida pela ação da meditação e ou sonho, se funde ao processo de autoconhecimento, aqui apresentado como mecanismo de conhecimento de si e do outro.
Por ora, é isto. Acredito que tenha obtido um resultado deveras satisfatório!

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À luz

A luz

A lucidez:



Refleti;
Encontrei;
Busquei.